Há alguns anos, escrevi um texto depois de reler "Escutatória", de Rubem Alves.

Voltei a ele recentemente e foi curioso perceber duas coisas: continuo profundamente interessada pela escuta — talvez até mais do que antes —, mas já não penso sobre ela exatamente da mesma maneira.

Rubem Alves brinca com a ideia de que temos cursos de oratória por toda parte, mas quase nada que nos ensine a escutar. E talvez haja alguma sabedoria nessa provocação.

Porque ouvir é relativamente fácil.

Escutar, não.

Escutar exige permanecer diante daquilo que o outro está dizendo sem usar cada segundo de sua fala para preparar a nossa resposta.

E isso é muito mais difícil do que parece.

Quantas vezes alguém ainda está falando e nós já estamos argumentando mentalmente?

Já encontramos a explicação.

Já formulamos a defesa.

Já decidimos onde aquela pessoa está errada.

Às vezes fazemos até algo mais sofisticado: permanecemos em silêncio, olhamos atentamente, balançamos a cabeça... e continuamos sem escutar absolutamente nada. 😅

O corpo ficou na conversa.

A mente abriu uma reunião paralela.

Durante muito tempo percebi em mim uma necessidade enorme de me explicar. Se alguém não compreendia exatamente o que eu queria dizer, eu tentava explicar novamente. Depois de outro jeito. E mais uma vez.

Na época eu pensava que o problema era o outro não conseguir me compreender.

Hoje acho que havia outra coisa acontecendo também.

Eu tinha dificuldade em suportar a possibilidade de não ser compreendida exatamente como gostaria.

E isso muda bastante a leitura da situação.

Porque escutar não envolve apenas considerar o outro importante.

Envolve também reconhecer que o outro é outro.

Ele possui uma história, referências, afetos, medos, experiências e modos de interpretar o mundo que não coincidem necessariamente com os meus.

Posso me explicar muito bem e, ainda assim, ele compreender outra coisa.

Posso dizer algo com uma intenção e produzir um efeito completamente diferente.

Posso ser escutada e não receber concordância.

Essa talvez seja uma das partes mais difíceis da escuta: ela exige certa renúncia ao controle.

Na educação, escutar é também uma ação pedagógica

Depois de tantos anos trabalhando com educação, essa questão ganhou para mim uma dimensão ainda maior.

Quando um professor escuta uma criança, não está simplesmente sendo gentil.

Está produzindo informação pedagógica.

A maneira como um estudante explica uma resposta, formula uma hipótese, argumenta, hesita, pergunta ou até erra nos mostra alguma coisa sobre o modo como ele está pensando.

É justamente aí que mora uma parte essencial da mediação docente.

Ensinar não consiste apenas em apresentar aquilo que sabemos.

Também precisamos descobrir o que o outro já sabe, como está organizando esse conhecimento e onde encontra obstáculos.

Sem escuta, corremos um risco enorme de ensinar para um aluno imaginário enquanto uma criança real está sentada diante de nós.

Talvez por isso eu considere a escuta uma competência pedagógica tão importante.

Ela não substitui o conhecimento didático.

Mas permite que esse conhecimento encontre alguém.

E nas relações?

Aí o negócio fica mais interessante. 😅

Queremos ser escutados.

Queremos ser compreendidos.

Queremos que considerem nossas necessidades, nossas dores, nossas razões.

Tudo absolutamente legítimo.

O problema começa quando, sem perceber, transformamos desejos em contratos que o outro nunca assinou.

"Se ele me ama, deveria perceber."

"Se me conhece, deveria entender."

"Se eu faria isso por ela, ela deveria fazer por mim."

Criamos roteiros internos e ficamos indignados quando as outras pessoas esquecem de decorar suas falas.

Talvez não seja possível viver sem expectativas. Somos humanos: antecipamos, desejamos, imaginamos, esperamos.

A questão não é eliminar expectativas.

É perceber quando transformamos uma expectativa nossa em obrigação alheia.

Existe uma diferença enorme entre dizer:

"Eu gostaria que você fizesse isso."

e acreditar:

"Você deveria saber que precisa fazer isso."

A primeira frase abre uma relação.

A segunda frequentemente inaugura uma frustração.

Mas existe uma escuta anterior

Há outra pergunta que, para mim, ficou ainda mais importante com o tempo:

Você consegue se escutar?

Não estou falando de obedecer imediatamente a tudo que sente.

Sentir não é receber uma ordem.

Pensar também não significa necessariamente compreender.

Podemos passar o dia inteiro produzindo pensamentos sem realmente nos observar.

Escutar a si mesmo talvez seja conseguir perguntar:

Por que isso me afetou tanto?

O que estou tentando defender?

O que desejo de verdade?

Isso é uma necessidade, um medo ou uma expectativa?

Estou dizendo "sim" porque quero ou porque temo as consequências do "não"?

Essa escuta interna não serve para nos tornar autocentrados.

Ao contrário.

Quanto mais conseguimos reconhecer o que acontece dentro de nós, menos precisamos colocar no outro a responsabilidade por organizar aquilo que sentimos.

E talvez então a escuta se torne um pouco mais possível.

Não porque aprendemos uma técnica perfeita.

Mas porque já não precisamos ocupar todos os silêncios.

Não precisamos vencer todas as conversas.

Não precisamos ser compreendidos o tempo inteiro.

Às vezes podemos simplesmente permanecer ali, diante de outra pessoa, genuinamente curiosos para descobrir:

"O que existe nesse outro que eu ainda não entendi?"

Talvez seja disso que uma verdadeira escutatória precise.

Menos pressa para responder.

Menos certeza sobre o que o outro deveria pensar.

E um pouco mais de espaço para que alguma coisa que ainda não sabemos possa aparecer.

Se esse cruzamento entre escuta, desenvolvimento humano e prática pedagógica te interessa, a Biblioteca Formare reúne mais reflexões e materiais gratuitos sobre esses temas.

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