Passei mais de dez anos como coordenadora pedagógica antes de virar gestora. E se tem uma frase que eu ouvi — e disse — repetidas vezes nesse período, é essa: "não deu tempo de fazer formação, o dia foi só apagar incêndio".

A gente até naturaliza isso. Conflito na sala, responsável na porta, falta de professor, prazo de documento para ontem. Tudo isso existe e precisa de resposta. O problema é quando isso vira o trabalho inteiro, e a formação — que é a função que justifica o cargo — vira o que sobra, quando sobra.

Aqui vai uma coisa que talvez incomode: se toda semana o tempo de HTPC virou aviso, recado e organização de evento, isso não é coordenação pedagógica. É gestão de urgência. São coisas diferentes, e a segunda, sem querer, vai comendo o espaço da primeira até a gente esquecer que ela deveria existir.

Coordenação pedagógica é função formativa. É sustentar espaço de reflexão sobre a prática, observar o que está acontecendo na sala de aula e devolver isso ao grupo de um jeito que gere movimento, criar as condições para que o professor pense sobre o próprio trabalho — coisa que ele raramente tem tempo de fazer sozinho.

Vigotski tem uma ideia que eu uso muito para pensar essa função: aprendizagem — inclusive a do adulto, inclusive a do professor — acontece na interação, mediada por alguém que sabe fazer uma pergunta melhor do que a que a gente saberia fazer sozinho. Esse é o papel do coordenador. Não é fiscal. É mediador de desenvolvimento profissional.

Isso exige proteger tempo. Dizer não para a tarefa que não é sua. Negociar com a direção o que realmente cabe na função. E, sinceramente, aceitar que às vezes vai sobrar incêndio mesmo — mas ele não pode ser o trabalho inteiro.

Se essa reflexão faz sentido para você, vale repensar junto: o que, na sua rotina de coordenação, é formação de verdade — e o que é só urgência disfarçada de prioridade?